Olá para xs leitorxs desse pequeno blog que vos escreve! Sentiram falta das minhas escritas? Infelizmente eu não consigo alimentar o blog com frequência, por motivos de sou mãe e empreendedora, e a rotina é bem corrida, mas hoje eu venho falar com vocês sobre o setembro do second hand e não vou mentir, mas eu desconhecia essa informação até esse ano quando eu comecei a ser bombardeada nas redes sociais por esse assunto, e então comecei a pesquisar mais sobre e achei interessante esse movimento da Oxfam (ong britânica) que nasceu em 2019, pois visa contrapor a indústria, tem caráter sustentável e estimula o consumo consciente.
“A moda rápida tem um alto custo para as pessoas e para o planeta. Muitas vezes, ela se baseia no trabalho mal remunerado de mulheres em todo o mundo, contribui para a poluição e gera milhões de toneladas de resíduos têxteis a cada ano. Ao repensarmos nossos hábitos de consumo, podemos ajudar a construir um futuro que valorize os trabalhadores, proteja o meio ambiente e reflita um mundo mais justo e sustentável.” https://www.oxfamamerica.org/take-action/secondhand-september/
O desafio de 30 dias é a alma da campanha, a proposta convida as pessoas a consumirem peças de segunda mão ao invés de peças novas, além de estimular o reparo de roupas que já existem mas estão avariadas, em pleno September Issue.
The september issue é o nome de um documentário da Vogue muito interessante que mostra os bastidores da edição de setembro da revista, que é a edição mais importante da publicação, justamente por ser o mês em que acontecem as principais semanas de moda do mundo. É a temporada primavera/verão lançada nas 4 principais capitais do mundo e em sequência, é uma mês que impulsiona e alavanca a indústria da moda, além de estimular o consumo desenfreado.
Portanto a ação da Oxfam é uma ação de contracultura, que vai contra a lógica. Porém eu fiquei muito reflexiva a respeito dessa ação então decidi trazer aqui para o blog essas reflexões.
Quando eu vi o primeiro post sobre a campanha, pensei imediatamente na Carol Lardoza. Ela é uma historiadora de moda que lança um olhar democrático e social sobre a moda, e em um dos seus posts no instagram ela fala sobre a prática do passar a roupa pra frente dentro das famílias pobres e periféricas, eu mesma que nasci em uma família classe média, quando as coisas apertavam a gente ia na casa das primas mais velhas buscar roupa que não servia mais pra elas mas que serviam pra gente, a minha irmã herdava as minhas roupas…
Ou seja, a sustentabilidade está entre nós há muito tempo, não é um conceito novo ele só ganhou um rebranding que vem acompanhado de muitos termos em inglês, e roupa usada virou second hand, chique não é mesmo! E esse é um dos motivos para os brechós estarem tão no hype hoje em dia.
Brechó era coisa de pobre e estudante de moda até a época em que eu escrevi o meu TCC lá em 2010/11; quando o Saindo do Armário nasceu em 2013 já estava pipocando de brechó e desde então esse segmento tem tido um crescimento exponencial.
Mas como eu disse no início do texto, o setembro do second hand fez eu refletir, e a primeira coisa que me veio à mente foi: O mercado entendeu o potencial desse segmento e começou a investir pesado, tipo o grupo Arezzo que arrematou o Troc há alguns anos atrás, a Levi´s que criou o próprio brechó, que por enquanto existe apenas uma loja física em Nova York, mas a Levi´s é internacional e em breve veremos mais unidades de lojas de second hand da marca espalhadas pelo mundo.
Dentro desse cenário alguns brechós foram processados por grandes marcas, pois eles tinham uma curadoria focada em marcas menos acessíveis. Resultado, tiveram que parar de divulgar produtos “de marca” nas redes sociais e em suas lojas online, gastaram muito dinheiro com advogado e acredito que não conseguiram se recuperar do baque, pois nunca mais os vi no meu feed. A lei protege o grande, mas não protege o pequeno, porque ao meu ver não há crime algum em comercializar um produto de segunda mão de determinada marca, mas os poderosos surtaram! Como assim tem gente pobre e de classe média lucrando em cima dos meus produtos sem repassar uma porcentagem para a minha empresa?!
Bom, o meu ponto de vista a respeito desse movimento é o de que em alguns anos não haverá mais brechós como o meu, um brechó pequeno, mas que sustenta uma família. Então ao meu ver a sustentabilidade perde sentido, pois um dos pilares desse sistema é justamente o de gerar renda para pessoas pobres, em vulnerabilidade…Enfim, quando olhamos para as estatísticas mais de 50% das donas de brechó no Brasil são mulheres negras, e muitas são mãe solo. O empreendedorismo surgiu como uma alternativa de sobrevivência dentro da lógica em que vivemos, e o brechó é um dos empreendimentos mais fáceis e mais baratos de se começar, é por isso que a gente tropeça em brechós pela internet e pelas ruas das cidades.
E agora temos as franquias de brechó, que virou moda recentemente aqui no Brasil, porquê na gringa eu sei que já existe há muito tempo. E isso pra mim é muita loucura! Daqui a pouco vai ter brechó dentro de shopping, se é que já não tem! E por quê eu acho isso muito louco? Justamente porquê a ideia do brechó é a de pregar o consumo consciente, é ser sustentável, é diminuir impacto ambiental, totalmente o oposto do que uma franquia ou um shopping propõe.
Enquanto acompanhamos essa distorção do mercado de segunda mãe, brechós pequenos de mulheres batalhadoras pretas mães solo e marginalizadas pelos sistema estão fechando as portas, porquê não conseguem ganhar dessa concorrência desleal.
Então será que essa ação da Oxfam não acabou por ser um tiro que saiu pela culatra? Porquê quem aparece mais no seu feed? O Troc ou o Saindo do Armário BRECHÓ? Quem aparece em primeiro lugar nas pesquisas do Google? O Troc ou o Saindo do Armário BRECHÓ? Entenderam o meu ponto? Essa ação acaba por fortalecer grandes empresas que destroem o meio ambiente e não tem responsabilidade social. A ideia é excelente, mas dentro da lógica que vivemos em algum momento ela perde o sentido. Como eu sempre digo, É COMPLICADO!
Outra reflexão que eu tive foi a respeito da durabilidade das roupas. Hoje em dia, mesmo que você tenha todo cuidado do mundo com as suas roupas, elas não irão durar uma vida como era antigamente. Então como nós brecholeiras iremos sobreviver nesse cenário em que as roupas viram pano de chão com apenas 6 meses de uso? As roupas com CGC estão acabando, então até onde será que o setembro do second hand irá se sustentar?
Portanto eu concluo que mais uma vez a indústria venceu e quem ganhou a batalha foi o September issue, já que a gente sabe que as maisons de luxo e as grandes marcas estão em um movimento bem intenso para abocanhar essa fatia da economia no setor do second hand. E em tempos de crise climática, créditos de carbono, consumo consciente não há nada melhor para uma marca que ter o seu próprio brechó, não é mesmo!
